31.1.09

O nome dele

Esta vez, el ejercicio propuesto por la profesora Fernanda era escribir un texto con muchas redundancias.


Quando conheci o Yanko, eu não sabia o nome dele. É isso que acontece quando eu conheço alguém: eu não sei o nome até que a pessoa me diz. O Yanko falou para mim que ele se chamava como eu já disse, mas aquela revelação do nome dele aconteceu depois, quando eu já o conhecia, porque antes disso ele não tinha como me encontrar e adivinhar que eu queria saber o nome dele — e de fato eu ainda não sabia que queria. Se ele tivesse falado para mim o seu nome quando eu não sabia quem ele era, eu teria achado esquisito. Acho que ele também. Então, a gente esperou.

Esperamos mesmo, porque não foi logo depois de a gente se conhecer que ele se apresentou de nome e sobrenome, e inclusive de nacionalidade, idade, profissão e número de telefone. Não. Naquele dia, aliás, naquela noite, não houve troca de formalidades. A física e a química agiram com mais pressa que a civilidade e passamos do desejo à realização, com algumas agradáveis repetições. Ainda anônimos. Depois disso, ficamos com sono e vontade de dormir, e como já estávamos na cama, deitados e despidos, decidimos decretar o fim daquele dia, que aliás já havia acabado quando o sol foi embora e disse: até amanhã. Nós não ouvimos o sol falar; estávamos muito ocupados. Dormimos juntos sem nos apresentarmos, a carteira de identidade guardada. Na verdade, a minha, porque ele tinha apenas passaporte, mas eu ainda não sabia disso.

Quando acabamos de dormir, acordamos. E o que a gente sempre faz: dorme, acorda, dorme, acorda. Os ciclos do ser humano, seja branco ou preto, como nós éramos diferentemente, são sempre iguais, rotineiros, previsíveis e repetidamente os mesmos. A gente acorda com o dia, que vem depois da noite e antes dela, dia após dia, noite após noite, sempre do mesmo jeito. E o homem, obediente, escravo do relógio da terra e do sol, acompanha.

Quando acordamos, ele ainda não tinha falado para mim como se chamava, nem antes de dormir nem dentro dos meus sonhos, que talvez tenham sido também os dele. Eu continuava a não saber que ele era Yanko porque ele ainda não tinha se apresentado dessa maneira, mas só de outras que não precisavam de substantivos próprios — antes, melhor, de verbos, advérbios, adjetivos. Apesar do sol que já tinha saído, da lua que já tinha ido embora, da vontade de dormir que já tinha sido atendida com sucesso e de olhos fechados durante a noite, ele ainda não se apresentava.

Eu também não perguntei. Tinha fome. Ele também. A gente tomou café da manhã, para desfazer o jejum e conformar o estômago, que reclamava. Enquanto comíamos e bebíamos, ele não disse o nome, ainda não.

Mais tarde, quando eu já ia embora, ele finalmente pegou um papelzinho. Antes de escrever, procurou um lápis, pois precisava dele para redigir um texto breve, mas necessário: "Yanko", ele escreveu, e acrescentou um número de telefone, para que eu pudesse ligar. Aí eu perguntei a nacionalidade, cubano, eu já suspeitava pelo sotaque; a idade, ele não gosta de publicar e eu respeito; a profissão: modelo, dava para perceber.

Eu liguei para ele sim, muitas vezes, durante anos, sempre depois daquele dia, porque antes eu não sabia o nome dele e também não tinha o número. E mesmo se eu soubesse e tivesse, eu não teria ligado, porque a gente ainda no se conhecia e eu não teria achado motivos para falar com ele, que eu não sabia quem era — ou quem viria ser nos anos seguintes, naquelas vidas que ainda não eram nossas, mas uma minha, a outra dele.


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